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Vício em apostas: quando jogar deixa de ser diversão

Foto do escritor: Murilo Comparoni
Murilo Comparoni
26 de ago.
6 min de leitura
Mulher usando o celular para realizar uma aposta online

As apostas esportivas e os jogos de azar passaram a fazer parte do cotidiano de muitas pessoas. Com o crescimento das plataformas digitais, apostar ficou mais acessível do que nunca: pelo celular, é possível realizar uma aposta em poucos segundos e acompanhar os resultados em tempo real.

Para algumas pessoas, porém, o ato de apostar pode deixar de ser uma forma de entretenimento e se transformar em um comportamento difícil de controlar, trazendo consequências para a saúde mental, para os relacionamentos, para o trabalho e para a vida financeira.

Quando existe uma perda persistente de controle sobre o comportamento de apostar, com prejuízos significativos na vida da pessoa, podemos estar diante do Transtorno do Jogo, também conhecido como jogo patológico.


O que é o Transtorno do Jogo?

O Transtorno do Jogo é reconhecido como um transtorno relacionado a comportamentos aditivos. Ele envolve um padrão persistente de comportamento de jogo caracterizado pela dificuldade de controlar as apostas, pela crescente prioridade dada ao jogo e pela continuidade do comportamento mesmo diante de consequências negativas.

É importante fazer uma distinção: apostar ocasionalmente não significa necessariamente ter um transtorno.

O problema está menos relacionado simplesmente à frequência com que uma pessoa aposta e mais à relação que ela estabelece com o comportamento. Quando apostar passa a ocupar um espaço cada vez maior na vida, torna-se difícil parar ou reduzir e continua acontecendo apesar dos prejuízos, é importante buscar ajuda.


Quando o jogo começa a se tornar um problema?

Alguns sinais podem indicar que a relação com as apostas merece atenção:

  • dificuldade para controlar, reduzir ou interromper as apostas;

  • apostar durante períodos cada vez maiores;

  • gastar mais dinheiro do que havia planejado;

  • tentar recuperar o dinheiro perdido realizando novas apostas;

  • pensar frequentemente em apostas ou em maneiras de conseguir dinheiro para jogar;

  • esconder ou mentir sobre o quanto está apostando;

  • utilizar as apostas como uma forma de escapar de ansiedade, tristeza, estresse ou outros sentimentos difíceis;

  • deixar de lado atividades, responsabilidades, relacionamentos ou trabalho por causa das apostas;

  • continuar apostando mesmo depois de perceber consequências financeiras, profissionais ou familiares.

O Ministério da Saúde também destaca como sinais de alerta mudanças no humor, sono e rotina, dificuldades nos relacionamentos, culpa e vergonha, além do comprometimento do orçamento pessoal ou familiar.


O ciclo do vício em apostas

Um dos aspectos que pode tornar o vício em apostas particularmente difícil de interromper é o ciclo psicológico que se estabelece ao longo do tempo.

Uma pessoa pode apostar buscando diversão, excitação ou a expectativa de ganhar dinheiro. Depois de uma perda, pode surgir a ideia de que é possível recuperar o valor perdido com uma nova aposta.

A nova aposta pode trazer uma sensação momentânea de esperança ou alívio. Quando ocorre uma vitória, o comportamento também pode ser reforçado pela sensação de recompensa.

Assim, perdas podem levar a novas apostas na tentativa de recuperar o dinheiro, enquanto vitórias podem aumentar a confiança de que é possível continuar apostando.

Esse ciclo pode se tornar cada vez mais difícil de interromper, especialmente quando as apostas passam a funcionar como uma forma de lidar com emoções desagradáveis.


Vício em bets: por que as apostas online merecem atenção?

As chamadas bets trouxeram uma nova dimensão para o problema.

As apostas esportivas podem ser realizadas rapidamente pelo celular, muitas vezes durante partidas e outros eventos esportivos. Além disso, recursos como notificações, bônus, apostas em tempo real e recompensas podem estimular a repetição do comportamento. O Ministério da Saúde chama atenção justamente para esses fatores ao abordar os riscos das apostas online.

Isso não significa que toda pessoa que utiliza uma plataforma de apostas desenvolverá um problema.

A questão está em perceber quando o comportamento começa a ocupar espaço excessivo e a produzir consequências negativas.


Apostas esportivas e saúde mental

O impacto das apostas não se limita à questão financeira.

O vício em apostas pode estar acompanhado de ansiedade, irritabilidade, culpa, vergonha, isolamento social e dificuldades nos relacionamentos. Também pode afetar a rotina profissional, o sono e outras áreas importantes da vida.

Em alguns casos, a pessoa pode começar a apostar justamente para tentar aliviar sentimentos desagradáveis. O problema é que o alívio proporcionado pelo jogo pode ser passageiro, fazendo com que o comportamento se repita e se torne cada vez mais presente.

Por isso, falar sobre apostas e saúde mental é importante não apenas quando já existem grandes prejuízos, mas também quando a pessoa percebe que está perdendo o controle sobre seu comportamento.


“Eu consigo parar quando quiser”: quando procurar ajuda?

Muitas pessoas passam bastante tempo tentando controlar o comportamento por conta própria.

Pode acontecer de a pessoa estabelecer limites, apagar aplicativos, decidir que não vai mais apostar e, algum tempo depois, voltar a jogar. Também pode existir a sensação de que é possível recuperar o dinheiro perdido antes de realmente interromper as apostas.

Não é necessário esperar que as consequências se tornem graves para procurar ajuda.

Se você percebe que está tendo dificuldade para controlar as apostas, que elas estão interferindo na sua rotina ou que continuam acontecendo apesar dos prejuízos, conversar com um profissional de saúde mental pode ser um passo importante.

O Ministério da Saúde também orienta que pessoas que enfrentam problemas relacionados às apostas procurem apoio profissional. Atualmente, o SUS oferece atendimento em saúde mental para pessoas afetadas e seus familiares, incluindo possibilidades de teleatendimento.


Como a psicoterapia pode ajudar?

A psicoterapia pode ajudar a compreender os fatores que mantêm o comportamento de apostar e desenvolver estratégias para lidar de maneira diferente com pensamentos, emoções e situações que funcionam como gatilhos.

Na Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), por exemplo, o trabalho pode envolver a identificação de pensamentos automáticos relacionados às apostas, a compreensão dos padrões comportamentais e o desenvolvimento de estratégias mais funcionais para lidar com impulsos, emoções e situações de risco.

O objetivo não é simplesmente dizer para a pessoa “ter mais força de vontade”.

É compreender como o comportamento se estabeleceu, quais fatores o mantêm e quais mudanças podem ajudar a recuperar o controle sobre diferentes áreas da vida.


E quando existe vergonha de procurar ajuda?

A vergonha pode ser uma das barreiras para buscar tratamento.

Muitas pessoas escondem suas apostas, seus prejuízos ou a dimensão do problema por medo de serem julgadas. Outras acreditam que deveriam conseguir parar sozinhas.

O sofrimento relacionado ao jogo, porém, não deve ser tratado como uma questão de caráter ou falta de responsabilidade.

Buscar ajuda psicológica não significa fracasso. Significa reconhecer uma dificuldade e procurar recursos para enfrentá-la.

O atendimento psicológico deve ser um espaço de acolhimento, escuta e sigilo, no qual a pessoa possa falar sobre suas dificuldades sem ser julgada.


Vício em jogos, apostas e Transtorno do Jogo são a mesma coisa?

Os termos podem causar confusão.

No uso cotidiano, expressões como vício em jogos, vício em apostas, vício em bets e dependência de jogos de azar são frequentemente utilizadas para descrever dificuldades relacionadas às apostas.

Na linguagem clínica, entretanto, é importante diferenciar o Transtorno do Jogo, relacionado a apostas e jogos de azar, do Transtorno do Jogo (gaming disorder), relacionado a jogos digitais ou eletrônicos.

A Organização Mundial da Saúde reconhece o gaming disorder na CID-11 como uma condição distinta, caracterizada por perda de controle sobre o ato de jogar videogames, prioridade crescente dada aos jogos e continuidade do comportamento apesar de consequências negativas.

Por isso, neste artigo, quando falamos em Transtorno do Jogo, vício em apostas ou vício em bets, estamos nos referindo ao comportamento relacionado às apostas e jogos de azar.


Quando pedir ajuda pode ser o primeiro passo

Reconhecer que as apostas estão causando sofrimento pode ser difícil, mas não é necessário enfrentar essa situação sozinho.

Se você percebe dificuldade para controlar as apostas, está tentando recuperar perdas por meio de novas apostas, escondendo o comportamento de pessoas próximas ou percebendo prejuízos na sua vida pessoal, profissional ou financeira, pode ser importante procurar ajuda.

A psicoterapia pode oferecer um espaço seguro para compreender esse comportamento e trabalhar estratégias para recuperar o controle sobre suas escolhas e sua rotina.

Se você está enfrentando dificuldades com apostas e gostaria de conversar sobre isso, entre em contato para conhecer o atendimento psicológico online ou presencial em Jundiaí.



Referências

  • Ministério da Saúde. Saúde Mental — Não Aposte Sua Saúde.

  • Ministério da Saúde. Campanha Nacional de Prevenção aos Danos das Apostas Online.

  • Ministério da Saúde. Linha de cuidado para pessoas com problemas relacionados a jogos de apostas.

  • Organização Mundial da Saúde (OMS). Addictive behaviours.

  • Ministério da Saúde. Meu SUS Digital oferecerá até 100 mil teleatendimentos mensais para pessoas com necessidades relacionadas a jogos e apostas.



 
 
 

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