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Psicodrama: como o teatro pode ser uma ferramenta na psicoterapia

Foto do escritor: Murilo Comparoni
Murilo Comparoni
11 de set.
3 min de leitura
Pessoas em uma aula de teatro

Falar sobre sentimentos nem sempre é fácil — às vezes, colocar em palavras algo que dói é justamente a parte mais difícil do processo terapêutico. E se, em vez de só falar sobre um conflito, a pessoa pudesse encená-lo, vê-lo de fora, experimentar outros papéis dentro dele? É essa a proposta central do psicodrama: usar recursos do teatro para acessar, expressar e elaborar questões emocionais que muitas vezes ficam presas no nível puramente verbal.

Criado pelo médico e psiquiatra romeno Jacob Levy Moreno, no início do século XX, o psicodrama parte de uma ideia simples e poderosa: o ser humano se conhece e se transforma através da ação, não apenas da fala.


O que é o psicodrama e como ele surgiu

Moreno começou sua trajetória observando e dirigindo grupos de teatro espontâneo em Viena, antes de migrar para os Estados Unidos e desenvolver o método de forma mais estruturada. Ele percebeu que, ao encenar situações — reais ou imaginadas — as pessoas conseguiam acessar emoções e perspectivas que dificilmente apareceriam apenas conversando sobre o problema.

A partir dessa observação, Moreno estruturou o psicodrama em torno de alguns elementos centrais:

  • O protagonista: a pessoa cuja questão está sendo trabalhada na cena.

  • O diretor: o profissional (psicodramatista) que conduz a sessão.

  • Os egos auxiliares: outros participantes do grupo que assumem papéis dentro da cena (como um familiar, uma versão passada de si mesmo, ou até um sentimento personificado).

  • O grupo: que participa como plateia ativa e, depois, compartilha suas próprias ressonâncias com o que foi encenado.

  • O palco: o espaço, físico ou simbólico, onde a cena acontece.


Como o teatro se torna ferramenta terapêutica

Diferente do teatro tradicional, no psicodrama não existe roteiro pronto nem preocupação com plateia ou aplauso. A cena nasce da história real de quem está no centro do processo, e o objetivo não é atuar bem, mas entrar em contato com algo que muitas vezes está bloqueado ou automatizado.

Algumas técnicas comuns no psicodrama incluem:

  • Inversão de papéis: a pessoa assume o papel de outro personagem da própria história (um pai, uma chefe, um ex-parceiro), o que costuma gerar percepções que a conversa sozinha dificilmente traria.

  • Solilóquio: o protagonista verbaliza em voz alta pensamentos e sentimentos que normalmente ficariam apenas internos durante a cena.

  • Duplo: outro participante "empresta a voz" para expressar sentimentos que o protagonista tem dificuldade de nomear sozinho.

  • Espelho: a cena é reencenada por outra pessoa enquanto o protagonista observa de fora, ganhando uma perspectiva diferente sobre a própria situação.


Para quem o psicodrama pode ser indicado

O psicodrama costuma ser trabalhado em grupo, embora também existam adaptações para atendimento individual (o chamado psicodrama unipessoal ou monodrama). É frequentemente utilizado em processos que envolvem conflitos de relacionamento, elaboração de perdas, questões familiares, desenvolvimento de habilidades sociais e até em contextos organizacionais, para trabalhar dinâmicas de equipe.

Por envolver movimento, corpo e interação, o método costuma ser especialmente potente para pessoas que sentem dificuldade em elaborar suas questões só através da fala — ou que já fazem terapia verbal, mas sentem que "sabem racionalmente" o que sentem sem conseguir transformar isso na prática.


Psicólogo Murilo Comparoni CRP 06/169658


Bibliografia


MORENO, Jacob Levy. Psicodrama. São Paulo: Cultrix, 1975.

MORENO, Jacob Levy. Quem sobreviverá?: fundamentos da sociometria, psicoterapia de grupo e sociodrama. Goiânia: Dimensão, 2008.

GONÇALVES, Camila Salles; WOLFF, José Roberto; ALMEIDA, Wilson Castello de. Lições de psicodrama: introdução ao pensamento de J. L. Moreno. São Paulo: Ágora, 1988.

FONSECA FILHO, José Silvério. Psicodrama da loucura: correlações entre Buber e Moreno. São Paulo: Ágora, 1980.



 
 
 

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