Redes sociais e saúde mental: por que é tão difícil parar de rolar?

Você abre o Instagram ou outra rede social pensando em ficar apenas alguns minutos. Quando percebe, já se passaram quarenta minutos. Você fecha o aplicativo, coloca o celular de lado e, pouco tempo depois, sente vontade de conferir novamente.
Por que isso acontece?
As redes sociais foram desenvolvidas para facilitar a interação, o entretenimento e o acesso à informação. No entanto, algumas características dessas plataformas também podem favorecer um padrão de uso difícil de interromper, especialmente quando o conteúdo é personalizado, imprevisível e apresentado continuamente.
A relação entre redes sociais e saúde mental, porém, é mais complexa do que simplesmente perguntar se elas “fazem bem ou mal”. O impacto pode variar de acordo com a frequência de uso, o tipo de conteúdo consumido, a maneira como a pessoa utiliza as plataformas e as características individuais de cada usuário.
🧠 Por que as redes sociais prendem tanto a nossa atenção?
Uma das características mais importantes das redes sociais é que você nunca sabe exatamente o que encontrará em seguida. Pode aparecer uma mensagem, uma notícia, uma fotografia, um vídeo engraçado ou algo completamente inesperado.
Essa imprevisibilidade é relevante porque nosso cérebro aprende rapidamente a prestar atenção a estímulos que podem trazer alguma recompensa. Quando o próximo conteúdo pode ser interessante, engraçado, novo ou socialmente relevante, existe um motivo para continuar verificando.
É por isso que abrir uma rede social pode rapidamente se transformar em uma sequência de conteúdos que mantém nossa atenção por muito mais tempo do que inicialmente pretendíamos.
Isso não significa que as redes sociais estejam simplesmente “sequestrando” o cérebro, como algumas explicações populares sugerem. O comportamento é mais complexo. A combinação de novidade, recompensa, interação social e feedback imediato pode tornar a experiência particularmente atraente e favorecer a repetição do comportamento.
🔄 O problema não é necessariamente quanto tempo você passa online
É tentador estabelecer um número mágico de horas e concluir que determinada quantidade de tempo nas redes sociais necessariamente fará mal. A realidade, entretanto, é mais complexa.
Pesquisas encontram resultados variados dependendo da idade, do tipo de uso, do conteúdo consumido, do contexto e da maneira como a pessoa utiliza as plataformas.
Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2024 encontrou associações entre o uso de redes sociais e sintomas de ansiedade e depressão, mas também destacou a grande heterogeneidade dos estudos. Os resultados foram mais consistentes quando se considerava o uso problemático das redes sociais.
Isso significa que talvez seja mais importante perguntar “o que eu faço nas redes sociais e como isso afeta minha vida?”
👀 Consumir ou participar?
Duas pessoas podem utilizar a mesma rede social durante uma hora e ter experiências psicológicas completamente diferentes.
Uma delas pode conversar com amigos, acompanhar pessoas importantes para ela e participar de comunidades relacionadas aos seus interesses. Outra pode passar esse mesmo período observando silenciosamente a vida de centenas de pessoas e comparando sua aparência, seus relacionamentos, sua carreira e sua rotina com aquilo que vê na tela.
O tempo de uso é igual, mas a experiência psicológica pode ser muito diferente.
Pesquisas anteriores encontraram diferenças entre formas mais ativas e passivas de utilização das redes sociais, além de associações entre comparação social, interações negativas e sintomas de ansiedade e depressão.
🪞 A comparação social
Um dos mecanismos mais discutidos na relação entre redes sociais e saúde mental é a comparação social.
Nas redes, frequentemente entramos em contato com imagens de viagens, relacionamentos, conquistas profissionais, corpos e momentos felizes que representam apenas uma pequena parte da vida de outras pessoas. Quando comparamos esse recorte cuidadosamente selecionado com a nossa própria experiência cotidiana, que naturalmente inclui dificuldades, inseguranças e momentos ruins, podemos acabar estabelecendo uma comparação bastante desigual.
Essa dinâmica pode contribuir para sentimentos de inadequação, baixa autoestima e insatisfação com a própria vida, especialmente quando a pessoa passa a avaliar seu próprio valor com base no que observa nas redes sociais.
😰 Redes sociais e saúde mental: pode aumentar a ansiedade ou a depressão?
Existe uma associação entre uso problemático de redes sociais e sintomas de ansiedade. Uma meta-análise publicada em 2024 reuniu 209 estudos, envolvendo mais de 252 mil participantes de 28 países, e encontrou associações positivas entre uso problemático de redes sociais e diferentes formas de ansiedade, incluindo ansiedade generalizada, ansiedade social e o medo de estar perdendo algo, conhecido como FOMO (Fear of Missing Out).
Mas existe uma questão importante: qual vem primeiro?
Uma pessoa ansiosa pode passar mais tempo nas redes sociais como uma forma de distração ou de alívio momentâneo. Ao mesmo tempo, o excesso de comparação, notificações, informações e estímulos pode contribuir para aumentar a sensação de sobrecarga.
Em alguns casos, pode se estabelecer um ciclo no qual a pessoa utiliza as redes para aliviar temporariamente a ansiedade, mas acaba permanecendo conectada por mais tempo e posteriormente experimenta ainda mais cansaço, comparação ou sobrecarga.
😴 E o sono?
Outro aspecto importante é a relação entre redes sociais e sono.
O problema não está necessariamente apenas na luz emitida pela tela. Também existe o comportamento associado ao uso noturno. Quando estamos cansados, podemos continuar rolando o feed porque sempre existe um novo conteúdo disponível. Um vídeo leva a outro, uma publicação leva a outra e, quando percebemos, já passou bastante tempo além do horário em que pretendíamos dormir.
Uma revisão sistemática com meta-análises publicada em 2024 encontrou associação entre uso problemático de redes sociais, problemas de sono, ansiedade e depressão.
O sono, por sua vez, participa diretamente da regulação emocional. Dormir mal pode aumentar o cansaço, dificultar a concentração e tornar mais difícil lidar com situações estressantes, criando um ciclo que pode favorecer novamente o uso das redes como forma de distração.
📱 “Só vou dar uma olhadinha”
Um comportamento bastante comum é verificar as redes sociais sem uma intenção clara. Você pega o celular sem saber exatamente o que está procurando, abre um aplicativo, vê uma publicação e depois outra. Quando percebe, está consumindo um conteúdo completamente diferente daquele que inicialmente pretendia encontrar.
Esse comportamento pode ser reforçado pela própria estrutura das plataformas, que oferecem um fluxo praticamente infinito de conteúdo. Não existe necessariamente um ponto natural em que o aplicativo indique que você terminou. O conteúdo simplesmente continua disponível.
Com a repetição, olhar o celular pode se transformar em um comportamento automático associado a determinados momentos, emoções ou situações do cotidiano.
🔔 Notificações e expectativa
Existe ainda outro elemento importante: a expectativa.
Quando o celular vibra, você não sabe exatamente o que encontrará. Pode ser uma mensagem importante, alguém interagindo com uma publicação, uma notícia ou simplesmente uma notificação sem grande relevância.
Essa incerteza pode estimular o comportamento de verificar novamente o aparelho. Depois de muitas repetições, simplesmente olhar o celular pode se tornar um hábito automático, mesmo quando não existe uma necessidade real de fazê-lo.
É por isso que algumas pessoas percebem que pegam o celular quase sem perceber, mesmo quando não tinham uma intenção específica de utilizá-lo.
🧩 Quando o uso começa a ser um problema?
Usar redes sociais frequentemente não significa necessariamente ter um transtorno. O principal aspecto a observar é o impacto que esse comportamento está produzindo na vida cotidiana.
Alguns sinais podem indicar que o uso merece maior atenção: dificuldade persistente de interromper o uso, passar muito mais tempo conectado do que pretendia, deixar de realizar atividades importantes para continuar nas redes, utilizar as plataformas constantemente para escapar de emoções desagradáveis, apresentar prejuízos no sono, trabalho ou estudos, ter conflitos nos relacionamentos ou sentir ansiedade e irritação quando não consegue acessar as redes.
O problema, portanto, não é simplesmente “usar muito Instagram”. A questão é perceber quando o comportamento começa a ocupar um espaço desproporcional na vida e produzir consequências negativas.
🧭 O que pode ajudar a ter uma relação mais saudável com as redes sociais?
Em vez de depender exclusivamente de força de vontade, pode ser mais útil modificar algumas características do ambiente e observar os próprios padrões de comportamento.
Desativar notificações desnecessárias, por exemplo, pode reduzir a quantidade de estímulos que interrompem sua atenção durante o dia. Evitar deixar o celular ao lado da cama também pode diminuir a tendência d/e utilizá-lo automaticamente durante a noite.
Outra estratégia importante é observar quando surge a vontade de abrir um aplicativo. Às vezes, o gatilho pode ser tédio, ansiedade, solidão, procrastinação ou simplesmente hábito. Identificar esse gatilho permite compreender melhor o comportamento e pensar em alternativas, em vez de simplesmente tentar resistir a ele.
Também pode ser útil criar momentos do dia em que o celular não esteja presente, especialmente durante refeições, conversas ou atividades que exigem concentração. Pequenas mudanças desse tipo podem ajudar a recuperar gradualmente a capacidade de direcionar a própria atenção.
Por fim, vale observar como você se sente depois de utilizar as redes sociais. Você terminou mais relaxado, informado e conectado com outras pessoas? Ou terminou mais ansioso, cansado, inadequado ou insatisfeito? Essa percepção pode ajudar a identificar quais formas de uso são realmente positivas e quais parecem estar contribuindo para o seu mal-estar.
📚 Referências
Ahmed O, Walsh EI, Dawel A, et al. Social media use, mental health and sleep: A systematic review with meta-analyses. Journal of Affective Disorders. 2024.
Du M, Zhao C, Hu H, et al. Association between problematic social networking use and anxiety symptoms: a systematic review and meta-analysis. BMC Psychology. 2024.
The Association between Problematic Instagram Use, Psychological Distress, and Well-Being: A Systematic Review and Meta-Analysis. Cyberpsychology, Behavior, and Social Networking. 2024.
Problematic Social Media Use and Its Relationship with Depression or Anxiety: A Systematic Review. PubMed.
U.S. Surgeon General. Social Media and Youth Mental Health. 2023.
Murilo Comparoni - Psicólogo Clínico CRP 06/169658





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