top of page

Cogumelo e Psilocibina: neuroplasticidade, conexões e novas formas de percepção

Foto do escritor: Murilo Comparoni
Murilo Comparoni
26 de ago.
7 min de leitura
Cogumelos contendo psilocibina
Cogumelos contendo psilocibina

Cogumelos psicodélicos despertam curiosidade há milhares de anos, mas nas últimas décadas a psilocibina passou a ocupar também um lugar importante na pesquisa científica sobre o cérebro e a saúde mental.

A substância ganhou atenção especialmente pelos resultados iniciais de estudos clínicos envolvendo depressão, ansiedade associada a doenças graves e outros transtornos psiquiátricos. Ao mesmo tempo, pesquisadores começaram a investigar uma característica particularmente interessante dos psicodélicos: sua capacidade de produzir mudanças na atividade e na plasticidade do cérebro.

Mas o que exatamente acontece no cérebro quando uma pessoa utiliza psilocibina?

A resposta envolve serotonina, receptores neuronais, glutamato, plasticidade sináptica e uma reorganização temporária da comunicação entre diferentes redes cerebrais.


O que é a psilocibina?

A psilocibina é um composto psicodélico encontrado em diversas espécies de cogumelos.

Depois de ingerida, ela é convertida no organismo em psilocina, a substância que participa diretamente dos principais efeitos psicoativos.

A psilocina atua principalmente sobre receptores de serotonina, especialmente o receptor 5-HT2A, encontrado em grande quantidade em regiões do córtex cerebral. A ativação desses receptores está fortemente relacionada às alterações de percepção, pensamento e experiência subjetiva produzidas pelos psicodélicos.

Isso significa que a psilocibina não funciona simplesmente como uma substância que “aumenta a serotonina”.

Seu mecanismo é mais complexo: a psilocina modifica a forma como determinados circuitos neuronais respondem à serotonina e altera a dinâmica de comunicação entre diferentes regiões do cérebro.


O que acontece com os neurônios?

Uma das áreas mais fascinantes da pesquisa está relacionada à neuroplasticidade.

Neuroplasticidade é a capacidade do sistema nervoso de modificar sua estrutura e seu funcionamento em resposta a experiências, aprendizagem, ambiente e outros estímulos.

Nossos neurônios não são estruturas completamente estáticas.

Eles podem modificar suas conexões, fortalecer ou enfraquecer sinapses e alterar a organização dos circuitos dos quais fazem parte.

Pesquisas pré-clínicas indicam que psicodélicos como a psilocibina podem estimular processos relacionados à plasticidade estrutural, incluindo alterações em dendritos e espinhas dendríticas — pequenas estruturas que participam das conexões sinápticas entre neurônios.

Em modelos animais, estudos observaram aumento persistente no tamanho e na densidade de espinhas dendríticas após exposição à psilocibina.

É importante, porém, fazer uma distinção:

isso não significa que já esteja demonstrado que uma experiência com psilocibina simplesmente “cria novas conexões no cérebro humano”.

Grande parte das evidências sobre crescimento estrutural de novas conexões ainda vem de estudos pré-clínicos. Em seres humanos, temos evidências particularmente interessantes de mudanças na conectividade funcional do cérebro.


Psilocibina e o receptor 5-HT2A

Para compreender esses efeitos, precisamos voltar à serotonina.

A serotonina participa da regulação de diversos processos, incluindo humor, percepção, cognição e comportamento.

A psilocina possui afinidade pelo receptor 5-HT2A, um receptor serotoninérgico especialmente importante para os efeitos dos psicodélicos clássicos.

Quando esses receptores são ativados, uma série de processos intracelulares é desencadeada.

A partir daí, podem ocorrer alterações na atividade neuronal e em sistemas relacionados à plasticidade, envolvendo mecanismos como glutamato, BDNF, TrkB e mTOR.

Ainda existem perguntas importantes sobre exatamente como cada uma dessas vias participa dos efeitos da psilocibina. A neuroplasticidade induzida pelos psicodélicos é uma área de pesquisa ativa, e nem todos os mecanismos estão completamente estabelecidos.


O cérebro começa a formar novas conexões com cogumelos e psilocibina?

Essa é provavelmente uma das perguntas mais interessantes.

Em estudos com animais, os pesquisadores encontraram evidências de alterações estruturais nos neurônios após a administração de psicodélicos, incluindo crescimento de espinhas dendríticas e mudanças na conectividade sináptica.

Uma das hipóteses é que essas alterações possam criar um período no qual o cérebro apresenta maior capacidade de modificar determinados circuitos.

É por isso que alguns pesquisadores utilizam o conceito de psicoplastógenos para descrever substâncias capazes de produzir mudanças relativamente rápidas na plasticidade estrutural e funcional.

Mas é importante não transformar essa hipótese em uma promessa:

mais plasticidade não significa automaticamente mais saúde mental.

A plasticidade simplesmente significa maior capacidade de mudança. A direção dessa mudança depende também da experiência, do ambiente e dos processos psicológicos envolvidos.


A psilocibina também muda a maneira como as áreas do cérebro se comunicam

É aqui que os estudos de neuroimagem ficam especialmente interessantes.

Durante uma experiência com psilocibina, pesquisadores observaram alterações significativas na conectividade funcional do cérebro.

Um estudo publicado na Nature em 2024, utilizando ressonância magnética funcional, encontrou mudanças amplas na conectividade cerebral após a administração controlada de psilocibina. As alterações envolveram o córtex cerebral, tálamo, hipocampo e cerebelo, com efeitos particularmente marcantes em regiões relacionadas à chamada Default Mode Network, ou rede de modo padrão.

Mas o que significa isso? Imagine o cérebro como uma grande cidade.

Existem bairros especializados em determinadas funções e existem estradas que conectam esses bairros.

Normalmente, algumas regiões trabalham muito próximas umas das outras, enquanto outras permanecem relativamente separadas.

Durante a experiência psicodélica, essa organização pode ficar temporariamente menos rígida.

Algumas conexões dentro de redes previamente muito integradas diminuem, enquanto a comunicação entre redes que normalmente permanecem mais separadas pode aumentar.

Em outras palavras, o cérebro parece ficar menos segregado e mais globalmente integrado durante determinados momentos da experiência psicodélica.


Uma mente menos “compartimentalizada”?

Essa mudança na organização das redes pode ajudar a explicar algumas características subjetivas relatadas durante experiências psicodélicas.

Pensamentos podem adquirir novas associações.

Memórias, emoções e percepções podem se combinar de maneiras incomuns.

Estímulos que normalmente seriam processados de maneira mais independente podem passar a apresentar maior interação.

Isso não significa que todas as áreas do cérebro simplesmente “se conectem com todas as outras”.

O fenômeno é muito mais específico e dinâmico.

Estudos apontam para uma reorganização da comunicação entre redes cerebrais, incluindo redução da conectividade dentro de determinadas redes e aumento da conectividade entre sistemas que normalmente são mais segregados.

É justamente essa reorganização que torna a psilocibina tão interessante para a neurociência.


E a Default Mode Network?

A Default Mode Network (DMN) é um conjunto de regiões cerebrais associado a processos como autorreferência, lembranças autobiográficas, imaginação e construção de narrativas sobre nós mesmos.

Ela não é simplesmente a “rede do ego”, como algumas explicações populares sugerem. Seu funcionamento é muito mais complexo. Estudos com psicodélicos encontraram alterações importantes na atividade e na conectividade dessa rede.

Durante a experiência com psilocibina, a organização habitual da DMN pode ser temporariamente desestabilizada, ao mesmo tempo em que aumenta a comunicação entre diferentes redes cerebrais.

Algumas teorias relacionam esse fenômeno à chamada dissolução do ego, uma experiência subjetiva na qual as fronteiras habituais entre “eu” e ambiente podem parecer menos rígidas.

Ainda não sabemos exatamente quanto essa alteração contribui para os possíveis efeitos terapêuticos dos psicodélicos.


Neuroplasticidade não significa “reprogramar o cérebro”

A expressão “reprogramar o cérebro” é bastante utilizada quando se fala sobre psicodélicos, mas ela é uma simplificação.

O cérebro não é um computador que simplesmente recebe uma nova programação depois de uma experiência psicodélica.

O que a pesquisa sugere é algo mais interessante:

A psilocibina pode produzir alterações temporárias na dinâmica das redes cerebrais e, em determinadas condições, desencadear processos associados à plasticidade neural.

Isso pode criar uma espécie de janela de maior flexibilidade, na qual experiências e aprendizagens posteriores podem ter um papel importante.

Por isso, muitos pesquisadores consideram que os efeitos psicológicos dos psicodélicos não podem ser compreendidos apenas pela molécula.

A experiência subjetiva, o contexto e o acompanhamento psicológico também são elementos importantes.


Psilocibina e depressão: por que existe tanto interesse?

A possibilidade de utilizar psicodélicos no tratamento de transtornos psiquiátricos é uma das razões pelas quais a psilocibina despertou tanto interesse científico.

Estudos clínicos têm investigado seu potencial especialmente em depressão, incluindo formas resistentes aos tratamentos convencionais.

Uma das hipóteses é que alterações na conectividade cerebral e mecanismos de neuroplasticidade possam contribuir para modificar padrões rígidos de pensamento e comportamento associados a determinados transtornos.

Mas é fundamental não confundir pesquisa clínica promissora com tratamento estabelecido.

Os estudos ainda estão buscando determinar quais pacientes podem se beneficiar, quais são as melhores condições de administração, quais riscos existem e como a psicoterapia pode interagir com a experiência psicodélica.

A FDA, por exemplo, publicou em 2026 uma orientação específica para pesquisadores que conduzem estudos clínicos com medicamentos psicodélicos, mostrando que essa área continua em desenvolvimento científico e regulatório.


Psilocibina não é sinônimo de tratamento

Existe uma diferença importante entre estudar uma substância em um ensaio clínico controlado e utilizar cogumelos por conta própria.

Nos estudos científicos, a administração ocorre em condições cuidadosamente planejadas, com seleção dos participantes, controle da substância utilizada, acompanhamento profissional e protocolos específicos.

Além disso, os efeitos dos psicodélicos podem variar consideravelmente entre indivíduos e contextos.

Uma experiência pode envolver alterações intensas na percepção, emoções e pensamentos e, em determinadas pessoas, pode ser acompanhada por ansiedade, medo, confusão ou outras reações psicológicas.

Por isso, os resultados das pesquisas clínicas não devem ser interpretados como uma recomendação para o uso recreativo ou autoadministrado de psilocibina.


O que ainda não sabemos?

Apesar do enorme interesse científico, ainda existem muitas perguntas sem resposta.

Não sabemos completamente:

  • quais mecanismos são responsáveis por cada efeito da psilocibina;

  • quanto tempo determinadas alterações de plasticidade permanecem;

  • como as mudanças estruturais observadas em animais se traduzem para seres humanos;

  • quais características individuais favorecem ou prejudicam uma resposta terapêutica;

  • qual é exatamente o papel da psicoterapia durante e após uma experiência psicodélica;

  • quais são os riscos e contraindicações em diferentes populações;

  • e se os efeitos terapêuticos podem ser reproduzidos de maneira segura e consistente.

Essas perguntas são justamente o motivo pelo qual a pesquisa continua sendo tão importante.


O cérebro como um sistema capaz de mudar

Talvez a contribuição mais interessante da pesquisa com psilocibina seja ampliar nossa compreensão sobre a própria capacidade de mudança do cérebro.

Durante muito tempo, imaginamos os circuitos cerebrais adultos como estruturas relativamente fixas.

Hoje sabemos que o cérebro é plástico.

Experiências podem modificar conexões. Aprendizagem reorganiza circuitos. O ambiente influencia o funcionamento neural. A psicoterapia também pode produzir mudanças mensuráveis no cérebro ao longo do tempo.

Os psicodélicos acrescentam uma possibilidade fascinante a essa discussão: a de que determinadas substâncias possam alterar temporariamente a dinâmica das redes cerebrais e estimular processos de plasticidade, potencialmente abrindo novas possibilidades para a aprendizagem e para mudanças psicológicas.

Ainda estamos tentando compreender exatamente como isso acontece.

E talvez seja justamente essa a parte mais interessante da história: a pesquisa sobre psilocibina não está apenas tentando descobrir como uma substância funciona.

Ela também está ajudando a responder uma pergunta muito maior:

até que ponto podemos modificar a maneira como nosso cérebro aprende, se adapta e muda?


Referências

  • National Institutes of Health (NIH). How psychedelic drugs may help with depression.

  • National Institutes of Health (NIH). How psychedelic drugs alter the brain.

  • Vollenweider, F. X. et al. The neural basis of psychedelic action.

  • Olson, D. E. et al. Biochemical Mechanisms Underlying Psychedelic-Induced Neuroplasticity.

  • Lima da Cruz, R. V.; Leão, R. N.; Moulin, T. C. Effects of psychedelics on neurogenesis and broader neuroplasticity: a systematic review.

  • Above the threshold, beyond the trip: the role of the 5-HT2A receptor in psychedelic-induced neuroplasticity and antidepressant effects.

  • U.S. Food and Drug Administration (FDA). Psychedelic Drugs: Considerations for Clinical Investigations.

 
 
 

Comentários


bottom of page